A Afinação no Trombone
A palavra
"afinar" significa " tornar fino, apurar, aperfeiçoar,
purificar, melhorar etc." Em especial, quando um instrumentista toca as
notas do sistema diatônico, o som fundamental destaca-se, e os demais aparecem
com menor intensidade.
Nossa cultura musical é baseada na série
harmônica, em que uma nota é composta de um som fundamental
e de u ma série de notas secundárias.Se analisarmos o
espectro de harmônicos do trombone executando uma
determinada série harmônica, veremos que algumas notas são
mais altas ou mais baixas do que o
referencial estabelecido pelo sistema temperado. Os intervalos entre
as notas precisam de pequenos ajustes (Anexo I).
Existem aspectos relacionados à afinação que vêm das
propriedades físicas do som. No entanto, há alguns aspectos que são
relacionados à cultura. Por exemplo, se emitirmos a série harmônica
de Sol bemol, acima mencionada e incluída
no anexo I, e tomarmos uma segunda série
em Si bemol, a análise das duas resultantes
mostrará que o Lá bemol, 7 o harmônico da série feito
sobre o Si bemol, terá uma freqüência muito mais baixa do que o Lá bemol, 9
o harmônico da série de Sol bemol (Anexo II).
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Essa diferença
entre notas iguais de séries harmônicas diferentes sempre foi um problema prático
dos instrumentistas que lidam com a família dos metais.
Nos primeiros tempos, esses problemas eram causados pelo processo de fabricação,
que era artesanal e não tão rigoroso, numa época em que sua tecnologia de
construção ainda estava em desenvolvimento.
Afinar, antes de mais nada, é uma atitude que requer disciplina. Não basta ter
um bom instrumento um bom repertório, se o músico não
cultivar o hábito de tocar afinado. No entanto, existem duas formas de afinação
na música: a absoluta e a relativa.
A absoluta depende da capacidade de interiorizar
um padrão sonoro, como a escala temperada, por exemplo. Já
a afinação relativa depende do contexto sonoro em que
o instrumentista está tocando, ou seja, nela a
nota é afinada em relação às demais notas com as quais
ocorre e não somente em relação ao padrão próprio a que pertence.
A consciência do que é necessário
para obter uma boa afinação requer um desenvolvimento
significativo também de outras áreas do conhecimento humano, uma vez que
afinar significa ouvir o mundo que nos cerca e percebê-lo em sua
plenitude. No caso da técnica do trombone, três são os fatores predominantes
na afinação:
1) A RESPIRAÇÃO: é fundamental que se tenha um bom controle
do fluxo de ar, a fim de mantê-lo constante e uniforme. Para mudar
de registro do grave para o agudo, ou vice-versa deve-se ter controle
adequado em relação à pressão e quantidade de ar.
2) A LÍNGUA: é um fator importante, pois é ela quem controla parte da emissão
sonora, obstruindo ou liberando a passagem de ar
que vem do tórax. Com a língua é possível que a execução das
articulações sejam definidas, produzindo as seguintes variações:
a) Stacato Quando o instrumentista deseja uma
articulação com o ataque de nota mais seco, a fim de separar bem uma nota da
outra, a língua golpeia rapidamente por trás dos dente superiores, causando
uma explosão devido à interrupção da coluna de ar.
b) Detachet Quando o instrumentista
deseja uma articulação que possibilite
apenas uma separação das notas, sem que haja uma
explosão ou ataque brusco, a língua golpeia levemente por trás dos dentes
superiores, interrompendo a coluna de ar.
c) Legato quando o instrumentista deseja uma articulação que destaque
uma nota da outra sem que haja qualquer interrupção da
coluna de ar. É mais comum que o instrumentista use o legato para frases mais líricas
e grandes cantabiles.
3) A EMBOCADURA: nos instrumentos da família
dos metais, em que a emissão sonora
se dá através da vibração dos lábios em contato com o
bocal, torna-se necessário um condicionamento da musculatura labial e dos
demais músculos da face para que o instrumentista possa controlar e,
obviamente, mudar a altura das notas
da série harmônica. O fenômeno
acima descrito é a embocadura. Em resumo, é a forma necessária
para a geração do som nos instrumentos de bocal.
Tocar afinado desde o início dos estudos
pode ser a grande motivação de um
estudante de trombone. No entanto, nem todos os
estudantes podem contar com os requisitos naturais que favorecem uma boa
afinação. Quando naturalmente não foram consolidados alguns princípios que
favoreçam a afinação, cabe ao professor indicar artifícios
que venham a suprir as necessidades referentes à afinação.
Alguns didatas e executantes de instrumentos de
cordas (contrabaixo, celo, viola e violino)
sugerem uma afinação integrada (BORÉM,
1997, p. 310-15) em que o desenvolvimento de
um sistema sensório-motor baseado na
audição, tato e visão pode, de maneira eficaz,
minimizar o problema com a afinação. Com algumas adaptações, o
trombone pode fazer uso destes procedimentos
desenvolvidos para a família das cordas, já
que não é um instrumento temperado.
Para esta afinação, é necessária a combinação de cinco técnicas
referenciais de afinação:
1) AFINAÇÃO DINÂMICA: depende da percepção
auditiva do instrumentista anterior ao contato com o instrumento. Nesse
caso, o trombonista corrige a afinação imediatamente quando percebe a
desafinação, sem parar de tocar. Para
isso, o músico, que já conhece a música
que está executando, automaticamente corrigirá a desafinação que estiver
cometendo.
2) MEMÓRIA INTERVALAR: é a automatização das distâncias
das posições da vara em relação às regiões físicas do
instrumento e demais proporções. Com a posição
da vara fechada (primeira posição), obtém-se a série
harmônica de Sib; acima da campana (terceira posição), obtém-se
a série harmônica de Lá Bemol; abaixo da campana (quarta posição), obtém-se
a série harmônica de Sol; acima da bucha (sexta posição), obtém-se
a série harmônica de Fá; abaixo da bucha (sétima posição), obtém-se
a série harmônica de Mi. Proporcionalmente, a segunda posição terá
endereço entre a primeira e a terceira posição,
a quinta posição terá endereço entre a quarta e a sexta posição.
O trombone dispõe de sete posições da
vara, que possibilitarão a realização de
sete séries harmônicas. Com a alternância das posições,
é possível a escolha de todas as notas cromáticas. Contudo, estes não são
os únicos problemas com a afinação no trombone.
Como o trombone é um instrumento de série harmônica, alguns princípios físico-acústicos
exigem correções nos harmônicos executados nos
instrumentos de metal, visto que a utilização
do sistema temperado exigiu que os instrumentos sofressem alterações
na sua construção, a fim de serem mais dinâmicos na
performance. Nesta técnica, a automatização das distâncias deve ser
aliada à sensação auditiva e tátil.
3) MEMÓRIA TÁTIL: está diretamente relacionada com as sensações
desenvolvidas com a prática de execução do instrumento, em
que a posição da embocadura, a posição de abertura da vara, a quantidade e a
qualidade do fluxo de ar emitido formam um conjunto de sensações que podem ser
rapidamente decodificadas pelo instrumentista.
4) MEMÓRIA VISUAL: geralmente utilizada quando o
instrumentista toca em um instrumento de dimensões
diferentes do seu habitual. Nesse caso, para uma boa afinação,
ele faz comparações com alguns pontos visualmente.
5) VIBRATO: o vibrato, dentro das técnicas
de afinação, serve na verdade para
mascarar a desafinação, para confundir
o ouvinte quanto à imprecisão
na afinação. Para realizá-lo o instrumentista
oscila a nota pouco acima ou pouco abaixo do ponto exato. Este recurso começou
a ser bastante utilizado após a implantação do sistema temperado.
Estes cinco procedimentos para a afinação
devem ser escolhidos e combinados na hora certa, caso contrário,
o problema poderá se tornar ainda maior. Seu uso durante todo o
treinamento de performance, ou mesmo durante sua realização,
faz parte do desenvolvimento sugerido nestas técnicas.
Referência Bibliográfica
BORÉM, Fausto.
Afinação integrada no contrabaixo: desenvolvimento de
um sistema sensório-motor baseado na audição, tato e visão. In: X ENCONTRO
DA ANPPOM, Goiânia. Anais... Goiânia, 1997, p. 310-15.
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